segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Meditação Diária (002)

O Verão Zen

Ao terminar o Verão, Yang-shan fez uma visita a Kuei-shan, que lhe perguntou:
"Não vos vi por aqui todo o Verão, o que fizestes?"
Yang-shan replicou:
"Estive cultivando um pedaço de terra e terminei de plantar umas sementes."
"Então," comentou Kuei-shan, "não desperdiçastes o vosso Verão."
Por sua vez, Yang-shan disse:
"E vós, como passastes o Verão?"
"Uma refeição por dia e um bom sono à noite," argumentou o outro.
"Então," foi a vez de Yang-shan comentar, "não desperdiçastes o vosso Verão."



Koan: Buscamos a Verdade longe, mas ela está sempre próxima de nós.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Meditação Diária (001)

"Embora ninguém deva esperar agradecimentos por cumprir seu dever para com a humanidade e a causa da verdade - porque, no fim de tudo, trabalhar para outrem é trabalhar para si próprio - entretanto, meu Irmão, sinto-me profundamente grato pelo que fizestes."

Mestre Kuthumi




O que é magia?

Onde definimos magia, mago, Deus, religião, explicamos as forças que sustentam os universos e ensinamos como dar um soco na cara da realidade sem ser incriminado por lesão corporal



“Magia é o ato de evocar poderes e mistérios Divinos e colocá-los em ação, beneficiando-nos ou aos nossos semelhantes.” - Rubens Saraceni


“Magia é a ciência exata e absoluta da natureza e de suas leis.” Eliphas Levi (1810 – 1875) – História da magia



"Magia é a ciência do controle das forças secretas da natureza.” - S.L. Macgregor Mathers



“Magia é a aplicação da vontade humana, dinamizada, à evolução rápida das forças vivas da natureza.” Papus – Tratado Elementar de Magia Prática



“Magia é a ciência e a arte de usar os poderes invisíveis para produzir fenômenos visíveis.”H.P.Blavatsky



"Magia é a ciência e a arte de causar mudanças de acordo com a vontade.” - Aleister Crowley



Talvez esta seja a questão mais dispensável deste blog. Se você o esta lendo, é porque já tem seu próprio conceito de magia (ou não) e está apenas em busca de conhecimentos práticos. Os livros a respeito são cheios de teoria  e  descrição  de  experiências  místicas  para engrandecer  seus  autores,  mas  poucos  colocam ensinamentos práticos no foco principal. Criar um séquito de admiradores pode ser mais tentador do que dar a tais possíveis  admiradores  ferramentas  que  possam  fazê-los inclusive  superar  os  autores  dos  livros no  caminho  da magia.

Porque então me proponho  a  responder  a  uma questão  aparentemente  tão  irrelevante? 

Por  um  motivo simples: nem sempre as pessoas tem uma visão clara da magia quando pretendem estudá-la ou praticá-la.

Quando  algo  extraordinário  acontece  muita  gente tem o costume de dizer que “parece magia”. Magia no senso comum é aquilo que vai contra o que é esperado da realidade  prática,  aquilo  que  dá  um  coice  na  realidade instituída.

Podemos  dizer  que  três  forças  diferentes conjugam-se  para  equilibrar  a  realidade:  as  forças exteriores  de  manutenção  do  universo,  que  é  Deus,  os deuses, os padrões eternos, o grande arquiteto, ou seja lá qual  nome  você  deseje  dar.  A força  da  realidade consensual, ou seja, o chamado inconsciente coletivo, que é uma espécie de fusão da noção de realidade de todos os seres e os paradigmas de realidade individual.  Colocando de forma simplificada: A mente suprema, o conjunto dos seres sencientes e as mentes de cada indivíduo.

Entender estas três forças é essencial para você não se  confundir  e  fazer  um  samba  do  crioulo  doido  e prejudicar-se ao invés de evoluir na senda mágica. Existem tradições que desprezam alguma das três forças: algumas religiões  procuram  suprimir,  ou  até  mesmo  oprimir  os paradigmas individuais, elas pregam que apenas as forças supremas,  ou  seja,  Deus,  importam.  Nós  somos  seres miseráveis sem qualquer poder cuja única possibilidade de salvação  é  nos  religarmos  com  tal  força  suprema,  fora disso, estamos ferrados.

A  revolta  contra  tal  paradigma  criou  uma  linha oposta,  e  igualmente  maléfica,  aquela  que  prega  que apenas o paradigma individual conta, sua mente é tudo, o que está fora dela não interessa.  Alguns usam o velho bordão do Caos “nada é  verdadeiro. Tudo é permitido” como forma de impor tal linha de pensamento.  É uma distorção do brocardo caótico, que será analisado mais à frente  em detalhes. O que interessa neste ponto é deixar claro  que  negar  uma  força  externa  à  nossa  mente  que contribui para a sustentação da realidade  gera inúmeros prejuízos ao caminho do magista, uma vez  que lhe tira alguns  referenciais  indispensáveis  e  nega  inclusive  o caráter ascensional da magia.

Pensemos se não existe nada exterior à nossa mente que sustenta a realidade, como a realidade era sustentada antes de existirmos?  Que mente a sustentava?  Se nada, absolutamente nada é verdadeiro, se eu decidir que a lei da gravidade não existe os planetas se chocarão uns com os outros ou cairão no espaço infinito? Como vemos, é uma posição tão frágil que não resiste a um único argumento. Claro, você pode decidir ignorar tais forças exteriores em suas práticas mágicas e se limitar apenas à sua mente, mas a  despeito  disto  os  planetas  continuaram  belos  e majestosos em suas respectivas órbitas até a ordem dos tempos decida o contrário, e não sua mente limitada.  Existem ainda quem use o mesmo bordão caotista para negar até mesmo a força do inconsciente coletivo. “Nada  é  verdadeiro,  minha  mente  tudo  pode  moldar” alegam estes. Ora, considerando que existem mais de sete bilhões de pessoas vivem sobre este planeta, querer que sua  mente  mande  em  absolutamente  tudo  é  subestimar todos os outros inquilinos de Gaia. Será  que as mentes dos outros  sete  bilhões  vão  simplesmente  ficar  estáticas enquanto eu moldo o  universo inteiro à minha vontade?

Seria até legal que o fizessem, mas  é mais sensato não contar com isto. Enfim,  existe  uma  realidade  instituída,  e  ela  se constrói  a  partir  da  interação  das  três  forças  relatadas. Destas, a primeira absorve tudo, para a energia super emanada  é  impossível.  A  segunda  é  limitada,  sendo  o  inconsciente coletivo uma espécie de soma das realidades individuais, ele se altera de acordo com o tempo, o lugar e a cultura, sendo maleável  e inconstante. A última força, nossa mente, também é ilimitada, pois é feita à imagem e semelhança da fonte suprema, somos os deuses de nosso próprio  universo,  podemos  moldar  nossa  realidade individual à nossa vontade, sim “nada é verdadeiro. Tudo é permitido” na medida em que minha mente pode voar para onde eu deseje, nada é capaz de aprisioná-la ou suprimi-la se os instrumentos corretos para o seu despertar forem utilizados. Deixando claro que o princípio caótico é sábio e  correto,  sendo  desprovida  de  sentido  apenas  a interpretação que alguns praticantes dão a ele.

Como vivemos em grupos, a realidade consensual de nossa sociedade  nos  diz  o  que  é  possível  e  o  que  é impossível.  A força suprema não se prende a ela, nem a nossa  mente.  Quando  nossa  mente  se  choca  com  a realidade  consensual  ela  pode  se  dobrar  e  aceitar   a verdade de todo mundo ou dar um tapa na cara da mesma e fazer algo que ela diz que é impossível.  Isto se chama magia. Quando a praticamos, chegamos mais próximos da força suprema ilimitada.  Então qualquer um pode ser magista, é só fazer algo que  as  pessoas  acham  impossível?  A  questão  é  mais profunda do que isto. Um milagre, uma cura espiritual, um servidor ou um sigilo, tudo se enquadra no conceito de magia, mas não é porque realizamos tais efeitos que nos tornamos magistas. O mago é aquele que faz isso sabendo que está fazendo, sabendo quais mecanismos estão sendo movimentados. O que não significa que alguém que o faz sem saber não possa ascender, tal critério é estabelecido apenas como uma forma didática de classificar magistas e não magistas, sem desmerecer o caminho de nenhum dos grupos.



Se  você  realiza  um  milagre,  mas  sua  mente  é condicionada a achar que só a força suprema pode realizar aquilo através de você e que sua mente sozinha não tem poder nenhum para realizar nada, você é apenas religioso. Se  você  não  é  religioso  mas  consegue  lançar  um  mal olhado ou curar alguém por imposição de mãos mas não conhece que mecanismos levam a isto, você é um leigo.  É neste ponto que entra o ocultismo. Ocultismo é o estudo das leis ocultas do universo, seus mecanismos e funções.  Então todo mago precisa ser um ocultista. Ou seja, além de dar tapinhas na cara da realidade consensual, ele precisa conhecer as leis que regem estes tapas.  Se você estuda estas leis mais não pratica, você é apenas ocultista, ou estudioso da magia e do oculto. Se você estuda, pratica e consegue efeitos práticos, você é um mago. Então,  venha para o barco e ajude a remar, que a viagem é longa.

Texto originalmente escrito por Ian Morais.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Koan, Louco, Espirito Livre

Eis que vos apresento a compreensão do eterno retorno nietzschiano para um espirito livre. O valor da lámina 0 - O louco.

"Uma bela noite, o mestre Yao-shan foi passear pelas montanhas. Era uma linda noite de verão, e quando o sábio estava na beira de uma escarpa, as nuvens descobriram a lua e a névoa dissipou-se subitamente. Yao-shan pôde então ver o vale iluminado pela lua, numa visão de sonho...
Olhando tanta beleza, Yao-shan repentinamente começou a dar gostosas gargalhadas. Seu riso foi tão alto que os ecos reverberaram por quilômetros de distância.
No dia seguinte, os habitantes da pequena aldeia próxima das montanhas comentavam entre si:
"Ontem à noite ouvi risos! Misteriosos risos, e não sei de onde vinham." - disse um aldeão.
"Sim, eu também ouvi! Isso é realmente misterioso!" - replicou outro. Dois monges do templo ouviram os comentários e um deles simplesmente disse:

"Não há mistérios no Zen. O som que ouvistes foram de Yao-shan, rindo nas colinas. O Som da alegria zen é como a vida: não encontra fronteiras, e é ouvida por todos." 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Exercícios de Ingresso no Plano Astral

A seguir, são apresentados três exercícios que proporcionam caminhos para o astral que não são encontrados quando trabalhamos no formato costumeiro.

1.       Este caminho o levará ao astral “interior” e abrirá os domínios da memória as­tral. Isso significa que você poderá invocar e recriar imagens em vez de cons­truí-las. No entanto, isso só funcionará com imagens de objetos que já existiram alguma vez no passado.

2.        Este caminho levará você ao nível superior do astral, a um “portal” para o nível mental e, se você aguentar a pressão, ao nível espiritual/angélico inferior.

3.        O caminho “Das quatro vias” levará você aos reinos elementais da terra, da água, do fogo e do ar, respectivamente.

Exercício um

Comece como uma cortina de névoa branca que se abre diretamente para o nível astral. Lembre-se, que pisar nesse cenário todo branco é como pisar na neve. Comece a caminhar e invocar a sensação suave que levemente ondulam-te sob os seus pés. Esses níveis sutis são ilimitados, portanto você pode continuar andando o quanto quiser. Enquanto anda, comece a mergulhar mais fundo na ma­triz astral a cada passo. Não há nada que temer - basta continuar andando e mer­gulhando cada vez mais profundamente até que ela se feche sobre a sua cabeça (lembre-se de que você também está no corpo astral neste momento). Você se afun­dará com a matriz e se tornará parte dela, embora continue com a sua inteligência e capacidades   humanas.

Você pode parar de avançar neste ponto e descansar na protomatéria à sua vol­ta. Conjure o que quer ver ou ouvir ou saber e as imagens ou sons se manifestarão em forma de pensamentos ou sons. As imagens não serão claras a princípio, mas parecerão como num sonho e muitas vezes enevoadas, mas se você perseverar logo conseguirá ver imagens diretamente no seu centro visual interior. Você pode conti­nuar com um propósito bem definido ou simplesmente vagar a esmo.

Exercício dois

Siga a mesma rota inicial para o astral e acumule “matéria” suficiente para criar uma escadaria em caracol que desapareça na vastidão branca. Suba a escada e, à medida que sobe, repare que as cores do arco-íris começam a se infiltrar pela bran­cura imaculada. Logo as cores predominarão e você saberá que entrou no mundo mental. Também notará pequenas sombras e formas coloridas que mudam de apa­rência enquanto passam flutuando. Trata-se de formas-pensamento humanas do nível físico. A maioria são apenas pensamentos errantes, mas os de cores mais sólidas são definidos e cheios de propósito. As formas também lhe dão uma ideia do teor do pensamento, mas não revelam quem está pensando.

Você pode criar outra escada e continuar subindo em direção a outro nível mais alto e avançar até onde se acha capaz. Isso o levará até um nível composto princi­palmente por pontos parecidos com estrelas, mas que na verdade são seres angeli­cais. São seres de formas, tamanhos e cores variadas, alguns cuja forma difusa você mal consegue ver direito. Se começar a se sentir tonto e desorientado, volte imediatamente.

Exercicío Três

Use o mesmo ponto de entrada, mas pare e se volte para qualquer direção. Na ver­dade, aqui todas as direções são iguais, pois não existe ponto de referência no espa­ço, interior ou exterior. Espere calmamente e invoque o Rei de um elemento em particular. Logo você começará a ver uma mudança na vastidão branca e uma cor começará a aparecer. Essas cores serão as que você associa a certos elementos. Por exemplo, o dourado pálido pode significar o dourado do milho maduro e ser a sua cor para o elemento terra; ou você pode preferir o verde pálido da primavera. O verde-água ou o azul podem ser as suas cores para o elemento água e o vermelho vibrante, a sua cor para o elemento fogo. Um azul ou rosa profundo podem ser a sua opção para o elemento ar. Lembre-se, esse é o seu reino astral.


Este post, foi fortemente influenciado pelas práticas indicadas pela Dolores Ashcroft-Nowicki


O que é Astrum Argentum? O que é Thelema? Algumas Considerações!

Faze o que tu queres, há de ser tudo da lei


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São muitos poucos Thelemitas que já questionaram sobre o que vem a ser Astrum Argentum e sobre o que vem a ser Thelema.

Com relação a Astrum Argentum (ou A.'.A.'.) pode-se dizer que existem duas Astruns Argentuns; uma fundada por Crowley em 1907 e uma outra Astrum Argentum que sempre existiu e que possui diversos nomes (Grande Fraternidade Branca, Ordem de Melquisedec e etc.). Se formos analisar a estrutura de graus da A.'.A.'. de Crowley veremos que é a mesma da Golden Dawn sendo que ambas as ordens estão sub-divididas em três ordens: 1ª ordem, 2ª ordem e 3ª ordem. A 3ª ordem tanto da A.'.A.'. de Crowley como da Golden Dawn possui os graus de Magister Templi, Magus e Ipsissimus. A 3ª ordem da Golden Dawn se chamava (e ainda se chama) Astri Argentei. Crowley ao criar a sua ordem apenas flexionou o nome e ficou Astrum Argentum. Além da Golden Dawn e da A.'.A.'. de Crowley existem outras ordens que seguem um sistema de graus idêntico, ou seja, baseado nos 10 sephirots da cabala e em todas estas ordens existe a 3ª ordem com os graus de Magister Templi, Magus e Ipsissimus.
Com raciocínio e bom senso chegaremos a conclusão de que a A.'.A.'. propriamente dita se encontra em um plano espiritual muito elevado correspondente aos Sephirots Kether, Chokmah e Binah da Cabala e que o sistema fundado por Crowley em 1907 é apenas um sistema, dentre vários outros, para se chegar a verdadeira Astrum Argentum (ou Astri Argentei ou Astron Argon se assim preferir). A A.'.A.'. cósmica é o elo de convergência de todas as ordens iniciáticas autênticas sejam elas Thelemitas, Rosacrucianas, Gnósticas, Martinistas ou de qualquer outra tradição autêntica. Toda pessoa que tenha atingido um elevado grau de iniciação passa a fazer parte da A.'.A.'. Cósmica independente da Tradição Iniciática que tenha trilhado até então.

Arnold Krumm-Heller, fundador da FRA, afirma que foi iniciado na A.'.A.'. Mas muitos Thelemitas afirmam que tal afirmação é falsa enquanto que outros afirmam que é verdadeira. É bem provável que Krumm-Heller de fato não tenha sido iniciado na A.'.A.'. de Crowley visto que não existe nenhum documento que prove isto mas é bem possível que tenha sido iniciado na Ordem cósmica visto que existem vários sistemas de iniciação que culminam nos graus de Magister Templi, Magus e Ipsissimus. Krumm-Heller pode muito bem ter sido admitido na A.'.A.'. por outras vias que não as traçadas por Crowley e, portanto, isto lhe dava o direito de afirmar em seu livro "Logos, Mantra e Magia" de que atingiu o último grau da A.'.A.'. pois isto depende de que como é analisada esta questão.


Com relação a Thelema muitos Thelemitas (infelizmente mal-informados) afirmam que foi Crowley quem fundou Thelema e isto é ridículo! Podemos afirmar que Crowley trouxe Thelema ao público. O fato de o Liber al vel Legis ter sido revelado a Crowley por uma entidade espiritual chamada Aiwass já prova que Thelema já existia bem antes de Crowley. Também temos que levar em consideração que Thelema não se resume na pessoa de Aleister Crowley e, inclusive, existem algumas ordens iniciáticas que ensinam Thelema desvinculada da pessoa de Crowley como é o caso de uma Ordem Iniciática Grega chamada Threskia.

Amor é a lei, amor sob vontade

Olho de Hórus

segunda-feira, 1 de julho de 2013

64

Quando nos iremos, ah quando iremos de aqui?
Quando, do meio destes amigos que não conheço,
do meio destas maneiras de compreender que não compreendo,
Do meio destas vontades involuntariamente
Tão contrárias a minha, tão contrária a mim?!

Ah, navio que partes, que tens por fim partir,
Navios com qualquer coisa com que nos afastemos,
Navio de qualquer modo deixando atrás esta costa,
esta, a sempre esta costa, esta sempre esta gente,
Só a válida à emoção através da saudade futura,
Da saudade, esquecimento que se lembra,
da saudade, engano que se deslembra da realidade,
da saudade, remota sensação do incerto
Vago misterioso antepassado que fomos,
Renovação da vida antenatal, [...]
Absurdamente surgindo, estática e constelada
Do vácuo dinâmico do mundo.

Que eu sou daqueles que sofrem sem sofrimento,
Que tem realidade na alma,
Que não são mitos, são a realidade
Que não têm alegria do corpo ou da alma, daqueles
Que vivem pedindo esmola com a vontade de perdê-la...

Eu quero partir, como quem exemplarmente parte.
Para que hei-de estar onde estou se é só onde estou?
Para que hei-de ser eu sempre eu se eu não posso ser quem sou.

Mas isto tudo é como uma realidade longínqua
Daqueles que não partiram ou daqueles
Cujo lar é nenhum e de memória
Quando, navio naufragado, deixaremos o lar que não temos?

Navio, navio, vem!
Ó lugre, corveta, barca, vapor de carga, paquete,
Navio carvoeiro, veleiro de mastro, carregado de madeira,
Navio de passageiros de todas as nações diversas,
Navio de todos os navios,
Navio possibilidade de ir em todos navios
Indefinidamente, incoerentemente,
À busca de nada, à busca de não buscar,
À busca só de partir,
À busca só de não ser
A primeira morte possível ainda em vida -
O afastamento, a distância, a separar-nos de nós.

Por que é sempre de nós que nos separamos quando nos separamos ou quando deixamos alguém,
É sempre de nós que partimos quando deixamos a costa,
A casa, o campo, a margem, a gare, ou o cais.
Tudo que vimos é nós, vivemos só nós o mundo.
Não temos senão nós dentro e fora de nós,
Não temos nada, não temos nada, não temos nada...
Só a sombra fugaz no chão da caverna no depósito de almas,
Só a brisa breve feita pela passagem da consciência,
Só a gota de água na folha seca, inútil orvalho,
Só a roda multicolor girando branca aos olhos
DO fantasma inteiro que somos,
Lágrima das pálpebras descidas
Do olhar velado divino.

Navio, quem quer que seja, não quero ser seu! Afasta-me
A remo ou vela ou máquina, afasta-me de mim!
Vá. Veja eu o abismo abrir-se entre mim e a costa,
O rio entre mim e a margem,
O mar entre mim e o cais,
A morte, a morte, a morte, entre mim e a vida!

(Fernando Pessoa)
28/10/1924